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ELEIÇÕES NA PALESTINA
As responsabilidades da comunidade internacional
de Miguel Portas para a os
orgãos de comunicação social
Declaração 01/06, 26 de Janeiro de
2006
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Os palestinianos ainda não têm
um Estado, mas já têm democracia.
Esta a primeira conclusão que se deve tirar do acto eleitoral
ontem realizado na Palestina.
Os palestinianos afluíram em massa às urnas, e
aí exprimiram uma forte vontade de mudança. Esse,
o significado de uma participação eleitoral que
se aproximou dos 80 por cento, e da vitória alcançada
pelo Hamas.
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As eleições palestinianas
são um exemplo de democracia no mundo árabe.
Como observador do meu grupo no Parlamento Europeu estive em
Nablus, Jabba, Jenin e Jerusalém. Entrei em secções
de voto aleatoriamente escolhidas e (com excepção
de Jerusalém) pude comprovar que a votação
decorreu de forma limpa – com cadernos eleitorais no exterior
das salas de voto, com boletins claros, garantia de voto secreto
e bom funcionamento dos secretariados eleitorais. Essa foi a
impressão que recolheram, igualmente, dezenas de observadores
internacionais com quem troquei impressões.
Não apenas o dia do voto decorreu com normalidade; também
a campanha decorreu sem incidentes de maior. No mundo árabe,
as eleições palestinianas são um exemplo
de transparência e pluralismo que deve realçado,
independentemente dos resultados.
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Num único local as votações
não foram regulares – em Jerusalém.
Aí, vários candidatos e candidatas foram impedidos
de fazer campanha e detidos pelas autoridades israelitas; apenas
puderam exercer o seu direito de voto seis mil dos 130 mil palestinianos
em idade de votar, que vivem em Jerusalém leste - menos
de 5 por cento do universo eleitoral. E a maioria destes acabou
por exercer o seu direito no Posto de Correios vizinho à
cidade velha, preenchendo os boletins de voto à vista
de funcionários israelitas. Finalmente, jovens militantes
da Fatah decidiram responder a estas condições
anti-democráticas com slogans e cânticos partidários
à porta do posto de correio…
Em Jerusalém, reeditaram-se os problemas ocorridos durante
a eleição presidencial. Mas a responsabilidade
pertence ao Estado de Israel, que tem a jurisdição
sobre toda a cidade.
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O responsável maior pela vitória
do Hamas é a Comunidade Internacional.
O povo palestiniano exprimiu uma vontade clara de mudança
face à situação de exasperação
em que é forçado a viver. Essa vontade não
pode ser reduzida a um desejo de “islamização”
da mais secular, plural e aberta das sociedades árabes.
O voto no Hamas exprime, acima de tudo, um protesto muito alargado
da sociedade palestiniana, o que acusa e responsabiliza não
apenas a Autoridade Palestiniana, mas também a Comunidade
Internacional.
A Comunidade Internacional não foi capaz de impedir a
construção do muro e de centenas de check points
que transformaram a vida dos palestinianos num inferno; não
foi capaz de obrigar o Estado de Israel a abandonar a sua política
unilateral, obrigando-o ao “roteiro de paz” que
havia subscrito; incapaz de condenar a violência do ocupante,
centrou todas as suas críticas na violência dos
ocupados; e em face da continuação das execuções
extra-judiciais depois da retirada de Gaza, não teve
a palavra forte que se impunha.
A consequência desta política de dois pesos e duas
medidas, da ausência de firmeza na defesa do Direito Internacional
e de permanentes ziguezagues, está à vista. Um
povo levado ao desespero escolheu quem lhe pareceu interpretar
melhor essa exasperação.
A Comunidade Internacional perdeu a oportunidade histórica
de uma política ousada de iniciativa, em simultâneo
com o início do processo de legitimação
democrática iniciado após a morte de Yasser Arafat.
Se, após as eleições presidenciais e a
declaração de tréguas pelos grupos armados
palestinianos, a Comunidade Internacional, em vez do aplauso
ao unilateralismo, tivesse imposto o regresso à mesa
de negociações, talvez os resultados pudessem
ter sido diferentes. Mais do que nunca, esta lição
é preciosa para os próximos tempos.
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Em particular, a União Europeia
foi incapaz de actuar a uma só voz.
Javier Solana primeiro, a presidência austríaca
em seguida, e ainda um grupo de eurodeputados de centro e direita,
alinharam com o discurso israelita que visava impedir o Hamas
de participar nas eleições e chegaram mesmo a
ameaçar com o não cumprimento dos acordos financeiros,
em caso de vitória do Hamas. Este tipo de declarações
e tomadas de posição atiraram para os braços
do Hamas milhares e milhares de palestinianos indignados com
as ingerências externas na sua escolha democrática.
A arrogância deste discurso, a par da falência das
políticas, contribuiu para que os sentimentos de orgulho
nacional se exprimissem no Hamas e não nos interlocutores
de uma Autoridade Palestiniana enfraquecida interna e externamente.
O Hamas, que é uma força simultaneamente social,
religiosa, militar e política, beneficiou igualmente
do processo de desintegração da Fatah e da divisão
da esquerda laica em múltiplos partidos incapazes de
se entenderem entre si.
O voto na corrente islamista acusa, assim, a persistência
das desigualdades sociais e de práticas de corrupção
e autoritarismo imputáveis à Fatah e à
Autoridade Palestiniana. É uma tragédia que sentimentos
e aspirações populares de maior justiça
social se expressem no voto do mais conservador dos partidos
palestinianos; mas também é verdade que essa escolha
foi livre e democraticamente indiscutível.
O pior que a comunidade internacional e Israel podem agora fazer
é não reconhecer o próximo governo como
interlocutor válido e procurarem castigar os eleitores
com retaliações ou falta a compromissos assumidos.
Mais do que nunca, o novo quadro exige iniciativa política
e diplomática, e não a persistência dos
erros.
Miguel Portas
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