| Vinte
anos depois
Miguel Portas
artigo publicado no Diário de Notícias, Opinião, 31.12.05

1. Completam-se
amanhã 20 anos sobre a adesão de Portugal à
CEE. Pouco importa agora que, nos idos de 70, esta escolha tenha
sido feita, entre outras razões, para enterrar definitivamente
as veleidades revolucionárias de um país alterado.
A verdade é que as elites nacionais, por uma vez, acertaram.
Finalmente sem Império, era e é na Europa que o país
se deve reencontrar.
2. A adesão
foi popular porque sintonizou o país com o seu desejo de
modernidade. Mas o fosso entre expectativas e realidades cresce
a cada dia que passa.
A Europa representou para a iniciativa privada a abertura de mercados.
Mas para os trabalhadores, a promessa de salários europeus
e a garantia de uma vida digna na terceira idade, continua por cumprir.
A Europa renovou as aspirações de mobilidade e maior
abertura nos costumes. Mas se o aumento da oferta cultural e dos
bens de consumo é uma evidência, Portugal continua
a ser um dos quatro países onde o aborto ainda constitui
crime na Europa. E a mobilidade das pessoas é bem mais penosa
do que a de bens e capitais.
A Europa despertou nos mais pobres esperanças sem fim.
Mas o balanço dos fracos entre os fracos só pode ser
severo. E o aumento consistente do desemprego, desde 2000, apenas
agrava este juízo.
O saldo destes 20 anos é que as obras nas redes de infraestruturas
e o crescimento da sociedade de consumo, não tiveram equivalente
na melhoria das condições de vida devidas a grande
parte da população. As transformações
decorrentes da adesão foram mais superficiais do que profundas.
Betão e alcatrão mudaram a paisagem. Mas não
erradicaram os verdadeiros atrasos do país.
3. O ponto
onde nos encontramos avalia o modo como as elites e os governos
conduziram, com assinalável continuidade, a nossa integração.
Umas e outros aplicaram os fundos comunitários, como o ouro
do Brasil foi esbanjado em novo riquismo.
Os fundos não travaram a fuga dos campos em direcção
às cidades e ao litoral. Não renovaram o tecido industrial
do país, nem salvaram as suas pescas. Não transformaram
a educação e não fizeram da formação
ao longo da vida uma alavanca para enfrentar com qualificações
o Mercado Único e a globalização.
Pior ainda, os fundos comunitários transformaram-se no principal
critério para as decisões de investimento público:
se há dinheiro da Europa, faz-se; se não há,
adia-se.
Fez-se muito. Só não se fez o que era mais decisivo
para o futuro.
4. É indispensável
responsabilizar quem decidiu. Quem deu prioridade às redes
de auto-estradas e não à renovação e
modernização do transporte ferroviário; quem
investiu no tratamento de lixos, mas foi incapaz de promover a energia
solar num país de poucas nuvens; quem plantou centros culturais
pelo país, mas não encontra meios para os fazer funcionar;
quem renovou centros históricos, mas continuou a fazer bairros
sociais nas periferias da infelicidade alheia; quem investe em rotundas
e circulares, mas é incapaz de criar centros de acolhimento
para imigrantes e sem abrigo, ou serviços de assistência
domiciliária à solidão dos idosos.
Nada disto responsabiliza uma Europa de costas largas. Neste balanço,
o que está em causa é uma modernização
conservadora, consumista e novo-rica, que fez da Europa e dos seus
fundos uma ilusão colectiva destinada a não durar.
Os governos de Cavaco Silva, António Guterres e Durão
Barroso encheram o olho, a construção civil e o sistema
financeiro. Os autarcas renovaram mandatos. Mas todos adiaram o
país.
5. Também
a Europa se encontra em causa neste balanço. Os caminhos
da União são cada vez mais sinuosos, minimais e interesseiros.
O progresso técnico e científico, e o progresso social,
mesmo que a distintas velocidades, deixaram de seguir na mesma direcção.
O controlo dos preços e o Pacto de Estabilidade colocaram
em causa o emprego e as aquisições sociais. Quem andou
durante anos a sustentar que “melhor Estado” era “menos
Estado”, apanha agora com a doutrina oficial de hoje: “melhor
Europa, menos Europa”... Mas nem deste caminho se podem isentar
os nossos governos. De Soares a Cavaco e de Guterres a Santana Lopes
ou Sócrates, alegremente adoptaram a cartilha do “bom
aluno”, fórmula mágica que trocava a nossa aquiescência
a tudo o que se decidisse, contra o canto dos dinheiros. Portugal
jogou pequenino com as regras que os grandes ditaram. A nossa crise
também é tributária deste europeísmo
patrioteiro de mercearia, tão bem comportado quanto palavroso
e vazio.
Miguel Portas
|