| A
cidade do menino
Miguel Portas
artigo publicado no Diário de Notícias, Opinião, 24.12.05

Conto-vos de Belém.
Estive lá no mês passado. Cheguei ao lugar pela única
estrada por onde se entra, vindo de Jerusalém. Quinhentos
metros antes, um check point israelita verifica salvo-condutos,
definindo quem pode e não pode passar. Eu passei. Integrava
uma delegação do Parlamento Europeu e usufruía,
por isso, de prerrogativas negadas aos autóctones. Estranho?
Por aquelas bandas é assim. Era assim, também, no
tempo do menino.
Passado o check point, uma circular rodoviária assinala
o fim da recta. Fazem-se circulares quando dela saem três
ou quatro caminhos. Mas agora, do outro lado da dita, só
se vê muro. Muro a perder de vista. Tapando a vista. Só
uma pequena aberta regista que, do lado de lá, há
uma estrada que continua. A estrada que entra na cidade murada.
É por ela que sigo, fixando o aviso impresso a tinta vermelha
no betão do muro: “welcome to the ghetto”. Mais
tarde, vendo fotos aéreas da cidade, percebo melhor a saudação.
Belém encontra-se integralmente rodeada de muro.
Vinte e um séculos depois do menino, os muros substituem
as muralhas. Como os check points e seus soldados sucedem às
antigas portas de entrada na Medina e seus guardas romanos. Mas
a nova barreira cumpre uma função distinta da de outrora.
Agora, ela não regula as horas em que se pode entrar e sair
da cidade. Agora, ela garante que praticamente ninguém pode
sair da cidade onde nasceu, e que apenas turistas e diplomatas têm
acesso à cidade do milagre revelado. Eis Belém, ontem
refém do mais perene dos Impérios, e hoje aprisionada
pelo colonizador.
Aqui chegado, não resisto a um parêntesis. Ribeiro
e Castro disse esta semana que o terrorismo era filho da esquerda.
Ribeiro e Castro preside a um partido que se reclama da “cristandade”,
mas, ou pratica pouco, ou não conhece a História da
tradição. Tal como o Estado de Israel reivindica o
seu muro contra o terrorismo, também o Império romano
exercia a sua violência em nome da “legítima
defesa” contra o terror de judeus e cristãos que se
opunham à ocupação.
O exercício do terror, selectivo ou de massas, é
filho da História. Ele torna-se inevitável, sempre
que a força do mais poderoso não deixa alternativas.
Comunidades judaicas resistentes praticaram o terror contra os romanos.
Chegaram, até, a exercê-lo sobre si mesmas, como martírio
preferível à rendição, em mais de uma
ocasião. Do mesmo modo, cristãos defensores das tábuas
da lei recorreram ao assassinato público de autoridades religiosas
do judaísmo que colaboravam com a Pax romana. Por muito que
custe à santa ignorância de Ribeiro e Castro, o terrorismo
tem raízes fundas na tradição judaico-cristã.
Só se compreende o dislate, porque o Partido Popular está
a minguar. É isso que leva Ribeiro e Castro ao extremismo
proclamatório. Mas a evidência não é
desculpa. A razão porque tantas vezes o exercício
do terror se confundiu com o direito de resistência, é
que ele é, acima de tudo, bastardo das ordens imperiais e
coloniais que sempre se arrogaram o monopólio da violência.
Ainda Ribeiro e Castro não tinha disparatado, e era exactamente
sobre isto que eu pensava no momento em que entrava em Belém,
a aprisionada. Tinha tido igual sensação no Norte
da Cisjordânia, em Qalqilya, outra cidade palestiniana rodeada
de muro. Mas a carga simbólica não é a mesma.
Afinal, Belém sempre é a cidade do menino.
Uso a minúscula porque estou convencido de que ele, já
crescido, teria preferido assim. Suspeito que Jesus gostaria de
ser reconhecido como menino e homem, e não como deus ou filho
de deus. Foi por isso com ternura que, na gruta por debaixo do altar,
ouvi o meu guia explicar o nascimento tal como nos evangelhos. Vejo-o
apontando para o lugar onde, jura, estavam as palhinhas. E logo
em seguida para outro canto, onde o burro e a vaca inventadas sete
ou oito séculos depois, aqueciam o ar frio, os reis magos
e restante presépio. O meu guia conta uma história
que enche de fantasia o mais empedernido dos corações.
A sua narrativa fantástica nada deve aos factos. Mas há
uma verdade que ali, de Belém, se transporta para qualquer
tempo e qualquer lugar – é a verdade de um voto e de
uma aspiração: que a paz e o amor – hoje diríamos
solidariedade - sobrevivam às guerras, às opressões
e às injustiças. Ontem como hoje, é difícil
imaginar mensagem mais urgente.
Miguel Portas
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