| Ilha no epicentro
do vazio
Miguel Portas
artigo publicado no Diário de Notícias,
Opinião, 01.10.05

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Chipre
esteve no centro do debate europeu sobre o início formal
das negociações com a Turquia, previstas para
3 de Outubro. Esta ilha, que foi um protectorado inglês
antes da independência, tem o seu norte ocupado pela Turquia.
Por um capricho dos deuses, a UE permitiu a adesão de
Chipre sem que, previamente, se tivesse resolvido o conflito
aí existente. É certo que a UE contava que o plano
gizado pela ONU fosse ratificado pelas duas comunidades cipriotas
- a grega e a turca - em referendo. Mas não foi. A comunidade
grego-cipriota respondeu de modo diferente do esperado. Agora,
a situação é simples: a Turquia só
poderá aderir à UE se reconhecer todos os Estados
que a integram. Isto é óbvio até para Ancara.
Mas é muito mais difícil de fazer. Exige tempo
e não o toque de caixa de um ultimatum. Porque isto também
é óbvio, as forças que se opõem
a uma eventual adesão da Turquia, decidiram jogar todos
os seus argumentos em Estrasburgo. Foram "quase" bem
sucedidas.
Desde que a crise da UE se tornou patente - em consequência
do fracasso do Tratado Constitucional e da ausência de
acordo quanto aos dinheiros europeus - uma aliança heteróclita
de forças políticas e Governos centrou a sua reacção
à crise numa ideia simples: não há pão
para malucos, enquanto a casa não estiver arrumada. Esta
"frente de rejeição" vai da direita
racista e anti-islâmica às esquerdas soberanistas
que vêem em qualquer nova adesão uma diminuição
dos fundos comunitários para os respectivos países.
E pelo meio inclui ainda segmentos relevantes das direitas e
esquerdas moderadas que, à deriva, entendem ser preciso
parar antes que seja tarde.
A fronda atravessou todos os grupos parlamentares, sem excepção.
Encabeçada pelo maior partido europeu, o PPE (direita),
tentou inicialmente condicionar o começo das negociações
oficiais com a Turquia a um prévio reconhecimento da
República de Chipre. Isso não obteve. Aliás,
só por isso votei a resolução de compromisso
subscrita por todos os principais grupos do Parlamento Europeu.
Mas o texto aprovado, ainda assim com significativa oposição,
arrefece as posições que Estrasburgo tomara um
ano atrás. Poder-se-ia dizer que tal endurecimento responderia
a retrocessos de Ancara ao longo do ano. Mas isso não
é verdade. Ancara manteve, porque ainda refém
de um exército intratável, o seu bloqueio de espaço
aéreo e marítimo a Chipre. Mas nos últimos
tempos o primeiro-ministro turco desdobrou-se em sinais positivos
para Bruxelas. Reconheceu existir uma "questão curda"
em plena capital do Curdistão turco. E patrocinou o primeiro
debate académico realizado na Turquia sobre o genocídio
da população arménia às mãos
do exército. Seja como for, o que se discutiu em Estrasburgo
não foi a Turquia ou Chipre, mas a Europa. Chipre foi
um mero pretexto para a santa aliança que prefere, à
adesão, uma "parceria privilegiada" com a Turquia.
É um eufemismo na realidade, trata-se de um acordo onde
só entra o mercado, mas não as pessoas. Ou seja,
a política e a democracia.
Porque este é o projecto, mas ainda não foi desta
que mataram as negociações de adesão, as
direitas quiseram a Europa a "falar grosso e de cima"
com Ancara. Para que se percebam os pesos e as medidas, no mesmo
dia, o plenário debateu também a última
cimeira das Nações Unidas. Como se sabe, foi um
fracasso com assinatura - a de John Bolton, porta-voz do Império
em Nova Iorque. No mínimo, esperar-se-ia que a altivez
revelada com Ancara tivesse equivalente com Washington. Mas
nem preciso de explicar o que sucedeu: foi chumbada a emenda
que assinalava este facto. Assim andam as coisas por Estrasburgo
e Bruxelas. Cheias de dignidade...
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Mudando de assunto:
garante o DN que Miguel Coelho, chefe do PS em Lisboa, afirmou
que o PCP tem um acordo de distribuição de pelouros
com o PSD, caso Carmona Rodrigues ganhe. É verdade que
o PCP tem responsabilidades em executivos municipais de direita.
Não deveria, mas tem. No Porto, em Gondomar, em Coimbra
ou em Sintra. Mas em Lisboa nunca. Por isso, não são
PCP e PSD que têm de confirmar ou desmentir. É
o PS que deve provar. Não pode valer tudo na disputa
de votos. Um voto conquistado ao adversário com base
numa mentira é um desrespeito pelos eleitores. Manuel
Maria Carrilho tem feito a mais desastrada das campanhas. Só
falta que faça da mentira a cereja no bolo...
mportas@europarl.eu.int
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