| 'Marcas
de Sangue', 'Colisão': vidas danadas
Miguel Portas
artigo publicado no Diário de Notícias,
Opinião, 17.09.05
Eles abraçaram-se
desesperadamente. Em seu redor, caiu a escuridão. Uma
única luz ilumina os olhos da miúda. O terror
estampou-se neles. Ela está em pânico. Sabe que
a sua paixão, ou compaixão, decidiram por si.
E contra si. Uns minutos antes, ainda tivera escolha. Podia
partir, estava de mala aviada. Mas algo lá dentro - talvez
a sua "condição de mulher" - a impediu.
No momento em que poisou os pertences, soube que ficaria com
o homem que a maltratava. Acaba assim, sem fim, Marcas de Sangue,
em exibição na Comuna.
Se vive em Lisboa, ou perto, não deixe de ir ver esta
produção da Escola de Mulheres, encenada por Isabel
Medina. E se é de longe, arranje como. "Aquilo"
não é teatro, apetece dizer. "Aquilo"
é o lado doente das vidas normais em cima de um palco.
À medida que a peça se esvai naquele lugar onde
o fim do mundo se encontra com uma praia no horizonte, o espectador
é impelido a mergulhar dentro de si. Sabe que aquilo
está a acontecer em qualquer outro lugar naquele preciso
momento. Daquela maneira bêbada. Ou de mil modos aproximados.
Sem adjectivos e sem a gordura das palavras inúteis,
como no texto de Judy Upton. Aquilo aconteceu com a sua melhor
amiga, com a colega de trabalho, com a vizinha e até
à sua pior inimiga. Pior, passou-se consigo. Ou passa-se.
Passa-se, porra!
Não prejudica levantar a ponta do véu. A história
é muito boa, mas melhor ainda é o espantoso trabalho
dos actores, o modo como nos revolvem. Eles movimentam-se como
se fosse o último dia das suas vidas. Como se dessem
testemunho do que realmente lhes aconteceu.
Uma é histérica, mãe e mulher falhada.
É a única onde se vislumbra algo daquilo a que
se chama "representação". Mas que é
uma mãe e mulher falhadas, senão uma actriz de
si própria? Ela ilude à filha o vazio da sua solidão,
como se esta o desconhecesse.
Outra, é uma mulher vivida com azar aos homens, de luminosa
lucidez, e que prefere copos e camas pouco recomendáveis
ao convívio com aquilo em que se transformou, um farrapo
aprisionado pelo medo. Foi parar à residencial daquela
praia, porque o destino aponta sempre o caminho a quem desiste
de si próprio.
A residencial pertence a um viúvo alcoolizado que gostaria
de ter sido músico. A culpa que carrega, não a
conto. Saiba apenas que se passa - e como se passa! - mal a
garrafa chega a meio. A vítima mais à mão
é o filho, uma bisarma que, incapaz de enfrentar o pai,
o imita em cima de quem deseja. E é neste vespeiro de
vidas danadas que aterra Cristina, uma jovem atrevidota e ainda
em estado "normal", ou seja, apenas mal amada pelos
pais, coisa que noutro lugar talvez tivesse cura.
Do quinteto nasce o enredo. A contenção e a precisão
milimétrica dos actores no fio da navalha, sai-lhes do
corpo e da alma. É arrebatador, porque as fronteiras
entre amor e desamor, paixão e ódio, auto-estima
e compaixão, se encontram sob permanente tensão.
O que torna "aquilo" tão real é o modo
como, na doença, aqueles personagens são humanos,
ambivalentes. Como nos fazem rir de ridículos e nos alimentam
a raiva. Porque ali estão os pedaços de nós,
os que assistem. Estão ali os homens, doutorados em chantagem
emocional, brutos e estupidamente frágeis. E estão
as mulheres, emancipadas, mas condenadas.
No fim, perguntei a Leonor Seixas, 24 anos, a tal dos olhos
estampados de terror, que faria se no lugar da actriz estivesse
ela própria. Ficaria ou não com a besta que a
espancara e que desesperadamente procurava libertar-se da sua
maldição? Ela não soube responder. E eu
também não sei se saberia, porque é fácil
falar de cátedra do que só acontece aos outros
até que aterra em nós. É danada a vida,
pois é.
Este soco de estômago deve ser visto em ligação
com um filme que espero ainda se encontre em exibição:
Colisão. É uma narrativa de histórias soltas
ao longo de 24 horas em Los Angeles. O esquema não é
original, nem isso importa. O que conta é o modo como
um conjunto de pessoas "normais", do lado de cá
da "doença", se confrontam com situações
que colocam em causa as certezas que pensam ter sobre si próprias.
Colisão é, em certo sentido, o oposto de Marcas
de Sangue. Mas convergem no modo como abordam a ambivalência,
luminosa e terrível, da condição humana.
Como rompem, ambos, as fronteiras adquiridas sobre normalidade
e doença. Já não há coisas simples.
Muito menos nós.
Quem goste de "realidade", liberte-se de novelas
e reality shows e dirija-se à sala de cinema ou de teatro
mais próxima. Encontrem-se com ela. E encontrem-se. Se
tiverem coragem...
mportas@europarl.eu.int
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