|
O Não que vem das profundezas
Miguel Portas
Artigo publicado no Diário de Notícias, Opinião,
21.05.05
Baudrillard:
a uma semana do referendo, este filósofo interroga-se sobre
a tenacidade do Não francês, “para lá
da razão política”. Essa é, de facto,
a grande revelação, tanto mais significativa quanto
a desproporção de meios entre os dois campos é
abissal. As lideranças partidárias a favor do Sim
representam 70 por cento do eleitorado francês; na televisão,
a repartição entre Sim e Não, é de 75
para 25; na imprensa escrita, a desigualdade é ainda mais
acentuada; e, finalmente, existe um envolvimento aberto do poder
de Estado e das instituições europeias, que abdicaram
do dever de isenção, em favor do Sim. Apesar de tudo
isto, apesar de nas cidades francesas as frases mais benignas do
Tratado inundarem, à chinesa, a paisagem urbana, o “inexplicável”
acontece: pelo menos metade dos franceses não se impressiona
nem se deixa convencer “pelos que sabem”. Uma “dissidência
silenciosa” está a tomar conta da França. E
o filósofo conclui pela existência de “um cadáver
na montra”.
Esse cadáver não é exactamente
o Tratado ou a Constituição, como prefiram chamar-lhe.
É o modo de existência da política contemporânea,
a intolerabilidade de um exercício do poder onde tudo o que
se pede ao povo “é o consenso”, o “Sim
ao Sim”, porque aí se encontram “os bons do lado
do Universal” contra os outros, “os enviados para as
trevas da História”.
Baudrillard compara este Não “das
profundezas” ao que, faz dois anos, tentou evitar a ocupação
anunciada do Iraque. Em ambos os casos, segundo ele, os de cima
procuram impor as suas escolhas contra as opiniões da maioria.
E o Não representaria, simplesmente, a rejeição
desse modo de existir da política. “O Não não
é um Não à Europa, é um Não ao
Sim”, à sua arrogância totalitária. Tem
razão.
L'Europe
divine, Jean Baudrillard para o Libération,
17.05.05
...............
Negri:
um segundo filósofo, este situado na extrema-esquerda do
pensamento político, interveio na liça, mas pelo lado
do Sim. Numa breve entrevista ao Libération, Toni Negri explica
que o Tratado é mais um passo para acabar com a “merda
do Estado-nação”, incapaz de se afirmar como
“contra-poder à dominação imperial”.
O sentido do seu voto destinar-se-ia, assim, a evitar o desaparecimento
da Europa...
O filósofo italiano é, seguramente,
um dos mais criativos teóricos marxistas contemporâneos.
A sua última grande obra, Império, inspirou milhares
de activistas dos movimentos por uma globalização
alternativa. Sucede que um dos aspectos mais polémicos do
livro – que o poder na sociedade capitalista globalizada deixou
de ter centro ou centros, para se exprimir em rede – recebeu,
com a invasão do Iraque, um poderoso desmentido factual.
Afinal, o Império “ainda” tinha centro. A História
pesava “ainda” sobre as novas tendências que o
autor iluminava com a sua análise e da qual deduzia um novo
antagonista – a “multitude”. Agora, pelos vistos,
esta precisa da ajuda da Europa do Tratado para se bater contra
“o golpe americano no Império”.
O mais curioso na posição de Negri
é que o seu argumento se exprime enquanto pura razão
de política fria. Como se o autor se tivesse esquecido, de
novo, que os modernos antagonismos não dispensam “as
profundezas” da História.
Se há evidência na disputa francesa,
é a de que só o Não leva a Europa a discutir-se.
Mais: só o Não provoca a emergência de um novo
protagonista no debate europeu – precisamente a “multitude”
tão incensada pelo filósofo...
«Oui,
pour faire disparaître cette merde d'Etat-nation»,
entrevista de Toni Negri ao Libération, 13.05.05
...............
Pacheco
Pereira: não é por causa da “Multitude”
e muito menos devido ao Império, que Pacheco Pereira decidiu
esta semana entrar abertamente no debate sobre a Europa do Tratado.
O seu ponto de vista não está ainda detalhado, mas
creio não me enganar se disser que o seu Não é
contra os saltos no abismo que fazem tábua rasa das histórias
das nações e se estampam por “excesso de voluntarismo”.
Pacheco passou uns anos pela Europa –
vulgo Bruxelas e Estrasburgo – e viu o mesmo que eu: que a
“Europa” é uma construção tecno-iluminada,
divorciada das opiniões públicas e, acima de tudo,
um casamento de interesses sem grama de paixão. Do diagnóstico,
presumo que Pacheco infira que não se deve andar depressa
demais ou, pior, que se dêem os passos errados que alimentam
as “profundezas” das reacções soberanistas.
Se este é o argumento, merece discussão séria.
Aliás, a discussão séria começa exactamente
onde acaba a chantagem miserável que visa condenar cada um
de nós a dizer simplesmente Sim ao Sim, porque a alternativa
é o caos. A 29, se os franceses votarem por quantos reclamam,
na Europa, o direito à inteligência, se verá
que não.
ESTÁ
NA HORA DE ORGANIZAR O MOVIMENTO DO “NÃO”,
Pacheco Pereira, 18.05.05
mportas@europarl.eu.int
|