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Imagine, por um momento, a vitória do 'não'
Miguel Portas
Artigo publicado no Diário de Notícias, Opinião,
23.04.05
À esquerda, caíram durante estes meses todos
os argumentos para ratificar o Tratado Constitucional, com excepção
de um: chumbá-lo é pior que tê-lo.
Que é hiperliberal na economia, qualquer um sabe.
Que é guerreiro e entrega a defesa da Europa à NATO,
também.
Mesmo em matéria de democracia e direitos, sem dificuldade
um europeísta moderado reconhecerá que o texto é,
no mínimo, coxo.
Por outras palavras se fosse para Portugal, nenhum socialista compraria
uma tal Constituição. Nem mesmo um social-liberal.
Mas é da Europa e então se conclui diferente eis
o acordo possível e mais vale este que nenhum. Depois de
aprovado, mudar-se-á o que esteja pior. A Europa sempre foi
assim - uma construção colectiva feita através
de pequenos passos.
Será verdade?
Infelizmente, não é.
Este tratado não é um "pequeno passo".
É, isso sim, uma ruptura com a estratégia dos pequenos
passos, um acto refundacional.
Este é o primeiro dos tratados que reclamam para si dimensão
constitucional - e esta não é uma diferença
meramente simbólica.
Não é a mesma coisa fixar num tratado entre Estados
o conjunto da legislação europeia que configura a
ordem económica liberal ou fixar tais escolhas políticas
num texto constitucional.
Do mesmo modo, uma coisa é fixar em tratado uma arquitectura
de poder ou blindá-la constitucionalmente. Principalmente
quando essa arquitectura estabiliza um sistema de poder com dois
únicos verdadeiros centros - o Banco Central Europeu (não
eleito) e um Conselho Europeu de primeiros-ministros onde quatro
põem e dispõem. Acresce que este poder só pode
ser alterado por unanimidade de todos os Estados membros.
Trata-se de um poder extraordinário colocando a moeda e
o controlo da inflação acima da economia, do trabalho
e das instâncias da política, ele é uno e coeso
para efeitos internos; mas dependendo da unanimidade do Conselho
para a política externa, só existirá no mundo
desde que acompanhe quem manda em Washington.
Não vos pergunto se esta é a Europa desejável.
Pergunto simplesmente se esta é a Europa possível.
E respondo pela negativa.
Se os cidadãos decidirem deixar de ser "consumidores"
de Europa, outra será possível - a que os tem por
actores. O ciclo de referendos é a oportunidade de dizer
stop a uma construção europeia em velocidade de cruzeiro
liberal e que se dissociou perigosamente das expectativas dos seus
cidadãos.
Portanto... admitamos, por um momento, que vence o "não".
Primeiro acto: as elites entram em estado de choque. Em conclave
sem fumo branco. Confesso que até pagava para ver. Mas, para
lá deste exercício de distribuição da
justiça, morrerá a Europa por causa disso? Claro que
não. A construção europeia foi suficientemente
longe para assinar a sua certidão de óbito. E é
demasiado importante para que a estrada seja regressiva.
A questão relevante é outra: saberão as elites
entender os sinais de França? Não e sim.
Não - sob o chumbo francês, os governos farão
aquilo que melhor sabem: meter a cabeça na areia e fingir
que nada ocorreu. Fá-lo-ão por exclusão de
partes. Porque não podem, de imediato, renegociar o tratado
- isso reabriria por todo o lado o processo de ratificação
e muitos dos que o fizeram por via parlamentar teriam agora de enveredar
pelos referendos. Por outro lado, faltar-lhes-á a coragem
política para admitirem o óbvio: que este tratado
morreu. Candidamente, vão dizer que prosseguem as ratificações
e no fim se verá.
E sim - a primeira certeza do "não" é a
suspensão das principais directivas da agenda liberal. Ninguém
se atreverá a insistir no projecto de liberalização
dos serviços (Bolkestein) ou na selvajaria do alargamento
do horário máximo de trabalho para as 65 horas por
semana. A Europa "de cima" jogará, por uns tempos,
à defesa. E essa é a sua primeira boa notícia
em muitos anos. Fá-lo-á, não por contrição.
Mas porque, sendo cega, apostará ainda no isolamento de França
no processo de ratificação.
Mas do "outro lado", a partir de 30 de Maio o "não"
terá muitos e muitos mais adeptos. Mesmos nas elites, serão
muitos a dizer que a cegueira foi longe de mais. E é esta
nova arrumação de forças que anunciará
um tempo de refundação assente na democracia.
Se o "não" vencer, a Europa terá a sua
Constituição. Outra, redigida por representantes eleitos
para o efeito.
Menos do que isso, em pleno século XXI, não é
admissível.
mportas@europarl.eu.int
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