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Breviário de um nome de difícil
pronúncia
Miguel Portas
Artigo publicado no Diário de Notícias, Opinião,
26.03.05
Bolkestein:
70 mil manifestantes disseram, em Bruxelas, “Não”
à liberalização do mercado de serviços
com base no princípio do “país de origem”.
Dias depois, as sondagens francesas davam, pela primeira vez, vantagem
ao “Não” no referendo sobre a Constituição.
Na origem dessa mudança encontra-se o medo da famosa directiva.
Chirac pode, assim, obter do Conselho Europeu a promessa de uma
revisão. Mas ela mais não é do que um compasso
de espera.
O director do Instituto Hayeck explica, no Le Monde, o que está
em jogo: “o código genético da controvérsia
é o de que para retomar o crescimento, a União deve
liberalizar os serviços; e para os liberalizar, não
existe qualquer alternativa ao princípio do país de
origem”. É mais que discutível. Mas a tese cala
fundo nos pressupostos da ordem liberal que rege a União.
Prossegue o ideólogo: “Há um elemento de verdade
nos slogans tristes desta nação cansada (a França).
A directiva ameaça directamente a gordura insustentável
das aquisições sociais da Europa ocidental. As forças
criadoras da concorrência que a directiva libertará,
obrigarão a depurar as legislações, baixar
os impostos que parasitam o trabalho, e diminuir as cargas sociais”.
Portanto, “diminuição correlativa e inevitável
das prestações sociais”. Com tanta franqueza,
não há Chirac que valha aos defensores do “Sim”...
Vale, contudo, a pena colocar quatro breves questões sucessivas:
1. A criação de um mercado único de serviços
é do interesse dos europeus? Sim. A crítica de esquerda
à directiva não incide sobre o objectivo proclamado,
mas sobre a lógica escondida que lhe preside. 2. Porque é
que são os trabalhadores dos países centrais que mais
contestam a directiva? Porque a perspectiva que ela abre é
social e ambientalmente regressiva. E é isso que a torna,
contra as primeiras aparências, igualmente penosa para os
países da periferia europeia. Esses, entre os quais se encontra
Portugal, têm interesse que as suas PME’s possam encontrar
contratos fora do país. E que possam beneficiar da livre
circulação de trabalhadores na Europa. Mas se o preço
do novo mercado for o abate das aquisições sociais,
a pressão para o nivelamento “por baixo” acabará
igualmente por se fazer sentir nesses países. 3. O princípio
do “país de origem” é o único que
garante o mercado único? Não, mil vezes, não.
A alternativa é a harmonização das diferentes
legislações nacionais, eliminando entraves burocráticos
e mil pequenos proteccionismos, sem tocar nas aquisições
sociais. A alternativa é um acordo político mais denso,
contra a lógica da concorrência pura, simples e sem
quartel. Pode, por falta de vontade política, demorar mais
tempo. Mas é o único modo decente de atingir o objectivo
sem espezinhar as pessoas.
Revisão do Pacto: o Conselho Europeu procedeu
também à revisão do Pacto de Estabilidade.
Com um défice a caminhar para os 7 por cento, o novo governo
respirou de alívio. A espada das indemnizações
por incumprimento deixou de ser automática; e o tempo para
entrar “na linha” foi dilatado. Para lá disto,
não há razões para novos estados de alma. A
revisão mantém o critério mãe do antigo
Pacto: um défice que não distingue entre os diferentes
tipos de despesa e investimento. E os Estados só ganham margens
de liberdade se estiverem próximos dos famosos 3 por cento.
Ou seja, a revisão introduz desculpabilizantes que colocam
dentro da lei os grandes prevaricadores, mantendo sob tensão
os países de menor poder negocial. O moribundo ressuscita
pare se aplicar à la carte. Esta mudança não
nos é indiferente, mas está muito longe do que seria
necessário. Sobretudo, está a léguas do que
alguma imprensa tem escrito, confundindo a revisão do PEC
com a da Estratégia de Lisboa: que o investimento em inovação
e tecnologia sairia para fora das contas de Bruxelas.
Por razões de urgência – tentar salvar o tratado
do voto dos franceses – ou por adaptação às
realidades – moderando a ortodoxia – a presidência
luxemburguesa procura conter os ultra-liberais. É louvável,
mas o melhorismo não chegará, sequer, à praia.
Aliás, a partir de Julho é Londres quem dita as regras...
Parafraseando, o problema é genético: as políticas
liberais não são reformáveis. Reformas sérias
pressupõem uma crise de refundação. O sobressalto
democrático da vitória do “Não”
em pelo menos um dos referendos deste ano, não derrota apenas
as políticas que estão na origem do descontentamento
– abre a via que porá fim à cegueira dos “de
cima” .
mportas@europarl.eu.int
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