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A Comissão, a directiva e o
Tratado
Miguel Portas
Artigo publicado no Diário de Notícias, Opinião,
19.03.05
Durão Barroso assumiu
o papel de defensor oficial de uma proposta de directiva que nem
sequer é de sua paternidade; e por causa dela arrisca-se
a ver chumbado o Tratado Constitucional europeu em França,
o que, aliás, o chumbaria tout court, porque carece
da unanimidade dos 25 Estados membros para entrar em execução.
A costumeira obstinação barrosista arrisca-se a derrotar
o "projecto global" que os liberais têm para oferecer
à Europa. Ainda bem, se assim for.
A última sondagem em França - publicada esta semana
no Le Monde - assinala um recuo de 10 pontos no "sim"
ao Tratado, face à sondagem de há três meses.
O "sim" ainda alcança 56%, mas o número
de hesitantes é vasto e as intenções firmes
de voto são maiores na área do "não".
O que parecia um resultado adquirido deixou de o ser.
Uma proposta - a directiva Bolkestein - encontra-se entre os factores
que estão a deslocar as opiniões para o "não".
Os eleitores não percebem como pode esta Constituição
"constituir um avanço social", se ela não
impede o cauchemar da pior directiva dos últimos
anos. De que adianta o Tratado, se é em nome dele que se
prepara a lei que dualizará os mercados de trabalho na Europa?
Nos países do centro da Europa, a directiva Bolkestein marca
a agenda política. Hoje mesmo, em Bruxelas, uma manifestação
europeia dirá como está o grau de mobilização
cidadã. Mas até os últimos dias de uma instituição
de maioria conservadora, como é o Parlamento Europeu, deu
indicações de que a directiva é de resultado
incerto. Com efeito, a comissão parlamentar de ambiente e
saúde pública aprovou, por grande maioria, um parecer
muito crítico. E na comissão de cultura e educação,
da direita à esquerda, os eurodeputados consideram que este
domínio deve ficar de fora do âmbito de aplicação
da proposta. Porque não querem o fim das políticas
públicas de apoio aos bens culturais.
Na realidade, a directiva é problemática em dois
domínios essenciais na definição do seu âmbito
de aplicação; e no critério que usa para promover
a criação de um mercado único europeu de serviços
- o princípio do "país de origem". O texto
distingue entre "serviços económicos de interesse
geral" e "serviços de interesse geral" (para
bom entendedor, os serviços públicos). E declara restringir
a aplicação do novo quadro legal apenas aos primeiros.
Sucede que em muitos serviços públicos já se
pratica o outsorcing ou a gestão privada. E, assim, a directiva
não evita que o mercado livre de prestação
de serviços entre nos serviços públicos pela
porta do cavalo.
Mas o que acentua a contestação é que tal
liberalização se faça na base das leis do "país
de origem". Trocando por miúdos uma empresa francesa
de mediação de trabalho na Europa desloca a sua sede
social para um recôndito país da União como,
por exemplo, a Lituânia. A partir daí, poderá
exportar trabalhadores para serviços em França de
acordo com as leis da Lituânia e não ao abrigo das
leis do "país de destino" desse contrato. Poderá,
até, empregar trabalhadores franceses em França, de
acordo as leis de trabalho e direitos sociais ou ambientais em vigor
na Lituânia. Não é preciso ser adivinho para
perceber a oposição que tal suscita. Em países
muito atingidos pelas deslocalizações, o horizonte
só pode ser de tempestade. E a dualização dos
mercados de trabalho é a consequência mais que previsível
deste pesadelo.
É compreensível o pânico na direita francesa
e entre os socialistas do "sim", a braços com uma
maciça rebelião dos seus eleitores. Em defesa do "sim",
os socialistas envolvem-se em todos os movimentos de contestação
social, procurando demonstrar que Tratado e Bolkestein são
coisas diferentes. Mas, por outro lado, é o crescimento da
contestação social que está a fundir, nas ruas,
os dois documentos. Quanto a Chirac, ante o êxito da greve
geral da semana passada, decidiu abrir os cordões à
bolsa. E logo a seguir, declarou "inaceitável"
a directiva Bolkestein. Ele sabe que a quebra do "sim"
se deve à deslocação dos eleitores para um
"não" de esquerda. Mas nada disso interessa a Durão
Barroso. Está a direita em risco de perder o essencial -
o Tratado - e Barroso insiste na Bolkestein. Barroso é como
os neocons de Washington, só sabe marchar em frente. Pode
ser que se estampe e que a Europa ganhe com isso.
mportas@europarl.eu.int
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