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Boas
notícias Miguel Portas para o ESQUERDA, 28.11.2006
E eis que, mesmo quando não parece, tudo, afinal, se continua
a mover.
As boas notícias começaram na Holanda, onde o partido
que havia polarizado a opinião pública contra o Tratado
Constitucional, saltou de 9 para 26 deputados, com votações
acima de 17 por cento em todas as principais cidades. O mais provável é que
se venha a constituir novo governo de grande coligação
ao centro. Mas o Partido Socialista, que por lá honra o
qualificativo, transformou-se na terceira força política.
Tudo indica não se tratar de um epifenómeno, como
ocorrera, poucos anos antes, com a lista Fortuiyn, populista de
direita e que agora desapareceu do mapa político. A ascensão
do Partido Socialista é espectacular, mas traduz enraizamento
social e uma deslocação da opinião pública
para posições muito críticas da ofensiva liberal
contra os direitos sociais.
A segunda notícia é ainda mais notável. Contra
todas expectativas, Rafael Correa vence as presidenciais no Equador
com quase 70 por cento dos votos. Do outro lado, estava Alvaro
Noboa, o principal "bananeiro" do país. Foi uma
vitória dos pobres contra os muito ricos. Eis uma história
latino-americana. A candidatura de Rafael Correa identificou as
aspirações da nação com as da pobreza
a uma vida pelo menos um pouco mais digna.
Ocorreu no Equador mais um episódio da extraordinária
vaga de fundo que percorre a América Latina. Sem recuar
muito no tempo e sem se avançar para lá do próximo
fim-de-semana, onde, na Venezuela, Hugo Chavez deverá ser
reeleito, a mudança é de monta. É verdade
que candidatos de esquerda perderam, por uma unha negra, no Peru
e no México. É mais que provável, aliás,
que no México, Obrador tivesse ganho, descontadas fraudes
de contagem. Mas mesmo nestes dois casos, a esquerda afirma-se
como a grande alternativa aos governos de submissão ao Norte
do continente. É ainda verdade que as vitórias de
Daniel Ortega na Nicarágua e de Lula da Silva no Brasil
estão longe de conter a promessa dos primeiros combates
políticos destes líderes. Mas só a cegueira
não descortinará nestes resultados a expressão,
mesmo que imperfeita ou até ilusória da mesma vaga
de fundo - a de povos que se levantam na sua procura de dignidade
e mudança.
A verdade é que o mapa político do continente americano
está a mudar. Nas traseiras do Império, criam-se,
por vontade popular, as condições para uma comunidade
latino-americana de nações, que enfrente a globalização
com integração regional e autonomia política
face a Washington. Rafael Correa é muito claro: quer renegociar
a dívida externa e os contratos do petróleo. Opõe
ao Tratado de livre comércio uma estratégia regional;
e quer que a única base norte-americana da região,
seja desafectada em 2009, quando expira o contrato em vigor.
G.W.Bush encontra-se, entretanto, em Riga, para nova cimeira
da NATO. José Sócrates também lá está.
A serem verdadeiras as notícias, a "cacha" é um
novo avião, o C-17, que, qual Hércules do passado,
se apresenta com descomunais capacidades de carga, alta autonomia
de voo e capacidade de aterragem em pistas de curta extensão.
Uma maravilha da técnica, portanto... O drama da NATO é que
não resolve os seus problemas transportando sempre mais
e mais homens. Com pérolas destas, apenas garante aos fabricantes
a sua carteira de encomendas. O drama da NATO é político.
Enquanto polícia do mundo, começa a perceber que
o seu cobertor é curto para o planeta. Ataca sem sucesso
no Médio Oriente e apanha com o levantamento nacional e
popular na América latina. Ora aqui está uma equação
geoestratégica de monta, para a qual os novos C-17 não
aportam qualquer contributo. Bem pelo contrário...
Miguel Portas
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