A GUERRA – OPA
José Manuel Pureza
Foi em nome da democracia, em nome da segurança internacional,
em nome da paz, em nome dos direitos humanos que se perpetrou a
guerra contra o Iraque, com o seu cortejo de crimes ignóbeis
em tudo idênticos aos do ditador deposto. E essa usurpação
das nossas melhores referências para impor a guerra foi,
ela mesma, um crime de lesa-humanidade. Houve quem pensasse a guerra,
houve quem a executasse e houve quem a justificasse. Por mais que
alguns agora se esforcem por disfarçar, nós não
o esquecemos. Há três anos, os editorialistas de serviço
desdobravam-se em acusações de cobardia contra todos
os que ousavam pôr em causa a certeza científica da
existência armas de destruição maciça
no Iraque. Há três anos atrás, os analistas
encartados acusaram, do alto da sua mais que obviamente certa visão
do mundo, todos os que recusavam a guerra de serem cúmplices
objectivos do terrorismo e medrosos apaziguadores com as novas
barbáries hitlerianas. Há três anos atrás,
houve quem fizesse questão de ficar na fotografia da Cimeira
das Lajes porque era evidente que a divisão da Europa era
um imperativo e não era menos evidente que o alinhamento
com os senhores da guerra era um desígnio nacional. Onde estão eles agora? Que estranho silêncio sobre
o Iraque é este de quem tão exuberantemente vexou
os adversários da invasão e da guerra como gente
primária e de má fé, complacente com todos
os eixos de todos os males? Que pena tenho de não os ver
agora a comentar, com a mesma certeza e a mesma sobranceria, as
imagens da guerra tal como ela é de facto e que eles legitimaram
com tanto zelo. Mas percebo que não possam. O embaraço é grande
demais. Ou talvez não. Ou talvez seja só o facto
de estarem agora ocupados a repetir, timtim por timtim, a mesma
estratégia de há três anos e a preparar a legitimação
de novas guerras. No Irão agora. Na Venezuela depois. E
onde quer que seja preciso para que a ordem imperial dos negócios
não seja beliscada.
Esta guerra é uma OPA sobre o Direito Internacional e sobre
uma ordem mundial de paz e de justiça. Os seus promotores
não querem menos do que eliminar a concorrência que
as regras do Direito e da decência fazem ao seu poder arrasador. É por
isso que eles espezinham as Convenções de Genebra
e põem Guantanamo ou Abu Grahib no mapa da nossa vergonha
global. É por isso que eles descartam o imperativo jurídico
e moral da proibição da tortura e dão ao mundo
prisões secretas e “técnicas de interrogatório
reforçadas”. É por isso que eles fazem a guerra
em nome dos direitos humanos e depois votam contra a criação
do Conselho de Direitos Humanos nas Nações Unidas.
Tudo em nome da eficácia, pois claro.
Nós os accionistas da empresa fascinante da cidadania democrática,
nós os sócios dessa sociedade imensa que é a
da democracia e dos direitos humanos declaramos esta OPA hostil.
E, em conformidade, resistir-lhe-emos.
Fazêmo-lo serenos e determinados. Tal como John Lennon, tudo
o que dizemos é que dêem uma oportunidade à paz.
E, tal como ele, pomos neste apelo tão simples toda uma
ambição de mudanças profundas. É fundamental
dar uma oportunidade à paz no Iraque, com o fim da ocupação
militar supervisionada pelas Nações Unidas como condição
para uma solução que preserve a unidade do Iraque,
os direitos dos seus povos e o respeito pelos direitos e liberdades
individuais. É fundamental dar uma oportunidade à paz
no Iraque devolvendo ao seu povo a condução efectiva
dos seus destinos, a posse efectiva dos seus recursos naturais
e a fruição efectiva da sua história e da
sua cultura.
Nos antípodas da ambição deste horizonte de
paz, a guerra começada há três anos teve um único
efeito de dominó: o de potenciar outras guerras (passadas
e futuras), de blindar as dinâmicas de transformação
social que, na região, criavam condições de
distensão e de maior pluralismo e o de pôr travão
a uma paz negociada e justa no nó górdio de todo
o Médio Oriente: a Palestina.
Não nos venham dizer, portanto, outra vez como há três
anos, que apelar à paz no Iraque é ambíguo,
fácil ou cobarde. Talvez um dia percebam que o fanatismo
da guerra é que é cobarde e que é em nome
da cultura da paz e da vida em abundância para todos, e sobretudo
para as vítimas de todas as opressões, que pedimos
que dêem uma oportunidade à paz.
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